Por: Claudemir Zafalon
O mercado internacional de cacau inicia a semana atento a uma combinação de fatores geopolíticos, climáticos e técnicos que continuam sustentando a volatilidade dos preços. Embora o anúncio de um acordo de cessar-fogo entre Irã e Estados Unidos tenha reduzido momentaneamente as tensões no Estreito de Hormuz, os investidores seguem cautelosos diante da possibilidade de novos episódios de instabilidade em uma das principais rotas do comércio mundial.
Nos mercados financeiros, o alívio geopolítico reduziu parte da aversão ao risco observada nos últimos dias. Entretanto, no mercado de cacau, os fundamentos próprios da commodity continuam prevalecendo.
Na última semana, os contratos futuros acumularam valorização superior a 1.000 pontos, impulsionados principalmente pela intensa cobertura de posições vendidas (short covering), movimento que levou muitos fundos de investimento a recomprar contratos anteriormente vendidos. A redução do interesse aberto ao longo da semana reforçou esse processo, indicando encerramento de posições e contribuindo para a forte recuperação das cotações.
Além dos fatores técnicos, o clima segue sendo a principal preocupação do mercado. As chuvas acima da média nas principais regiões produtoras da Costa do Marfim aumentam os riscos de doenças fúngicas, dificuldades na secagem das amêndoas e possíveis perdas de qualidade. Paralelamente, eventos climáticos extremos registrados em diversas regiões da Europa ampliam as incertezas sobre os impactos do clima na produção agrícola global, fortalecendo o prêmio de risco incorporado às commodities.
Na indústria do chocolate, começam a surgir sinais de que os elevados preços da matéria-prima estão encontrando resistência por parte dos consumidores. As ações da Lindt & Sprüngli AG caminham para registrar a maior queda trimestral em 17 anos, refletindo preocupações do mercado de que sucessivos reajustes nos preços dos chocolates estejam limitando o consumo. O movimento reforça a percepção de que a capacidade das fabricantes de continuar repassando os custos do cacau pode estar próxima do limite, fator que poderá influenciar a demanda global nos próximos trimestres.
Na sexta-feira, o contrato de cacau com vencimento em setembro encerrou o pregão cotado a US$ 5.095 por tonelada, com queda de US$ 152 no dia. Durante a sessão, os preços oscilaram entre a mínima de US$ 5.054 e a máxima de US$ 5.308. Foram negociados 21.719 negócios, totalizando 49.445 contratos.
O interesse aberto estimado registrou aumento de 1.727 contratos, alcançando 185.165 contratos, indicando que parte dos investidores voltou a estabelecer novas posições após a forte recuperação observada na semana anterior.
O RSI (Índice de Força Relativa) permanece em 69%, patamar que demonstra um mercado ainda bastante forte, embora já se aproxime da região considerada tecnicamente de sobrecompra, aumentando a possibilidade de movimentos de realização de lucros no curto prazo.
No mercado físico, as entregas do contrato de julho continuam evoluindo. Foram registradas mais 35 entregas, todas emitidas pela SocGen. A própria instituição recebeu 11 contratos, enquanto o Citi recebeu outros 24. O volume acumulado de entregas já alcança 302 contratos.
Outro fator de sustentação para os preços continua sendo o comportamento dos estoques certificados monitorados pela Intercontinental Exchange (ICE) nos portos dos Estados Unidos. Os estoques recuaram mais 3.927 sacas, totalizando 2.944.359 sacas. Apesar de permanecerem muito acima dos níveis mínimos registrados durante a crise de oferta de 2024, a recente sequência de quedas interrompe parcialmente o movimento de recomposição observado ao longo dos últimos meses.
No mercado cambial, o contrato futuro do real negociado na Bolsa de Chicago apresenta valorização frente ao dólar. No Brasil, a moeda norte-americana é cotada próxima de R$ 5,14, fator que tende a reduzir parcialmente a remuneração em reais das exportações brasileiras de cacau caso a valorização da moeda nacional se mantenha.
Para os próximos dias, o mercado deverá continuar monitorando a evolução das condições climáticas na África Ocidental, o comportamento dos estoques certificados da ICE, o posicionamento dos fundos de investimento e os desdobramentos do cenário geopolítico internacional. Apesar do recente alívio nas tensões envolvendo o Oriente Médio, os fundamentos ligados à oferta mundial de cacau permanecem como o principal direcionador dos preços internacionais.
Fonte: mercadodocacau


