O mercado internacional do cacau segue buscando sustentação em um cenário de fundamentos mistos, marcado pela recuperação gradual da oferta, pela retração da demanda industrial e por expectativas renovadas sobre o equilíbrio global da commodity. A revisão divulgada pela ICCO reduziu de forma expressiva o superávit esperado para 2024/25, agora estimado em apenas 49 mil toneladas, ante as 142 mil projetadas anteriormente. A produção mundial também foi ajustada para 4,69 milhões de toneladas, abaixo das 4,84 milhões previstas no último relatório.
Esse novo quadro aponta para a primeira reação estrutural mais consistente após anos de forte pressão sobre a oferta. A ICCO estima que a produção global em 2024/25 alcance 4,69 milhões de toneladas, um crescimento de 7,6% em relação às 4,36 milhões do ciclo anterior. Segundo o órgão, os preços historicamente elevados estimularam produtores a reinvestir nas lavouras, adotar melhorias de manejo e ampliar a capacidade produtiva, um movimento que começa a refletir em um ambiente de maior disponibilidade de matéria-prima.
Em contraste, a demanda industrial segue enfraquecida. As moagens globais devem recuar 4,3%, saindo de 4,81 milhões de toneladas para 4,60 milhões nesta temporada. A ICCO destaca que os custos elevados de insumos e operação continuam comprimindo as margens das indústrias, reduzindo o ímpeto de processamento. Como consequência, os estoques finais devem subir de 1,27 milhão para 1,32 milhão de toneladas, alta de 3,8%, enquanto a relação estoques/moagens passa de 26,5% para 28,8%, indicando maior folga no abastecimento e uma configuração menos apertada que a observada nos últimos anos.
A Hedgepoint projeta um superávit mais expressivo para a safra 2025/26. A expectativa da consultoria é de um excedente próximo de 305 mil toneladas, resultado de uma recomposição parcial da produção global, combinada à retração da demanda nas principais regiões consumidoras. Para Carolina França, analista de inteligência de mercado da Hedgepoint, apesar dessa melhora no balanço, o ambiente permanece altamente volátil e sensível a fatores climáticos, financeiros e logísticos.
O relatório observa que a oferta global vem se recompondo de maneira desigual. A Costa do Marfim consegue reduzir atrasos nas entregas e começa a normalizar seus fluxos. Gana, por outro lado, mantém riscos elevados devido à incidência de doenças em lavouras envelhecidas, o que limita o potencial de recuperação da produção. Já o Equador consolida seu papel como principal vetor de crescimento da oferta, sustentado por condições climáticas favoráveis e novos investimentos, com projeção de 570 mil toneladas e viés de alta. Mesmo assim, a consultoria destaca que os estoques globais continuam abaixo da média histórica, o que mantém a volatilidade elevada.
No lado da demanda, a dinâmica regional revela contrastes importantes. A União Europeia registra queda nas importações e retração da moagem, refletindo o consumo enfraquecido e o peso dos preços elevados. Na Ásia, a redução é ainda mais intensa, puxada pela forte queda da Malásia, enquanto a América do Norte apresenta resiliência, com aumento das importações líquidas, impulsionadas principalmente pela compra de amêndoas. Segundo França, a remoção das tarifas dos Estados Unidos sobre produtos do Equador tende a reorganizar os fluxos comerciais ao longo dos próximos meses, aumentando a competitividade do cacau equatoriano no mercado americano.
No mercado futuro, o contrato março em Nova York encerrou o pregão cotado a US$ 5.556 por tonelada, após oscilar entre US$ 5.424 e US$ 5.675, registrando alta diária de US$ 52. O volume negociado alcançou 17.609 lotes dentro de um total de 32.569 contratos movimentados, enquanto o interesse em aberto caiu 699 posições, passando para 120.184 contratos, em um movimento que sugere ajustes técnicos e redução parcial de exposição dos fundos.
Os estoques certificados nos portos dos Estados Unidos monitorados pela ICE registraram queda de 12.904 sacas, totalizando 1.698.135 sacas. As entregas físicas permanecem estáveis em 1.406 contratos, indicando que, embora a oferta global esteja em recomposição, a disponibilidade imediata de cacau certificado segue relativamente controlada.
No câmbio, o dólar futuro com vencimento em dezembro de 2025 permaneceu estável em R$ 5,385, oferecendo um ambiente momentâneo de previsibilidade para os agentes brasileiros que operam simultaneamente expostos às oscilações da commodity e da moeda.
Fonte: mercadodocacau


