Mercado do cacau perde força mesmo com ameaça do El Niño e petróleo em alta

Por: Claudemir Zafalon

O mercado internacional de cacau voltou a encerrar a semana sob forte pressão, refletindo um ambiente global de maior aversão ao risco e expectativas mais confortáveis para a oferta, mesmo diante da crescente preocupação climática com a formação do El Niño.

A escalada dos preços do petróleo, combinada com sinais de aceleração inflacionária nas principais economias, aumento das preocupações com juros mais altos por mais tempo e projeções crescentes para o endividamento público global, elevou a cautela dos investidores nos mercados financeiros. Esse ambiente mais defensivo reduziu o apetite por ativos de maior risco, incluindo commodities agrícolas, pressionando as cotações do cacau.

No entanto, o principal fator baixista para o mercado segue sendo a percepção de oferta mais ampla para a próxima temporada. Informações que circulam entre participantes do mercado indicam que a safra 2025/26 da Costa do Marfim, maior produtor mundial de cacau, poderá alcançar 2,2 milhões de toneladas, número significativamente acima das projeções anteriores, que giravam entre 1,8 milhão e 1,9 milhão de toneladas. Caso esse volume se confirme, o mercado poderá atravessar um período de abastecimento mais confortável, reduzindo parte do prêmio climático que vinha sendo incorporado aos preços.

Esse movimento chama atenção porque ocorre justamente em um momento em que meteorologistas elevam para níveis próximos de 100% a probabilidade de formação do fenômeno El Niño, tradicionalmente associado a eventos climáticos extremos em regiões produtoras agrícolas, incluindo a África Ocidental. Em tese, esse risco climático poderia sustentar novas altas no cacau. Contudo, por enquanto, a expectativa de maior produção tem se sobreposto ao temor climático.

Na sexta-feira, o contrato julho do cacau na bolsa de Nova York encerrou o pregão cotado a US$ 4.002 por tonelada, com queda de US$ 187 no dia. A volatilidade permaneceu elevada, com os preços oscilando entre a mínima de US$ 3.957 e a máxima de US$ 4.168. O mercado registrou 17.158 negócios, com volume total de 41.124 contratos.

O interesse em aberto recuou em 744 contratos, ficando estimado em 192.586 posições, movimento que pode indicar redução de exposição por parte de participantes especulativos diante da incerteza macroeconômica.

Outro fator que continua adicionando pressão é o crescimento dos estoques certificados monitorados pela ICE nos portos dos Estados Unidos. Os volumes aumentaram em 19.485 sacas, totalizando 2.659.016 sacas, reforçando a percepção de maior disponibilidade física no curto prazo.

Do ponto de vista técnico, o Índice de Força Relativa (RSI) do contrato julho opera em 48,5%, sinalizando um mercado mais neutro, sem condição extrema de sobrecompra ou sobrevenda, mas ainda vulnerável a movimentos bruscos diante de novos gatilhos fundamentais.

No câmbio, o contrato futuro do real para junho, com vencimento em 29 de maio, operava estável nesta manhã ao redor de R$ 5,07 por dólar. Para o mercado brasileiro, a estabilidade cambial reduz mudanças abruptas na formação dos preços internos convertidos da bolsa de Nova York, embora os diferenciais praticados pelas indústrias continuem sendo o principal fator de precificação local.

Fonte: mercadodocacau

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