Beneficiamento do fruto é oportunidade para pequenos agricultores diversificarem sua renda
Que o cacau é a matéria-prima do chocolate, isso não é novidade. Mas na Bahia, o maior produtor nacional do setor, o fruto aparece como ingrediente principal de drinks, compotas e até biocosméticos.
A agricultora familiar Valdeci Dos Santos, de 65 anos, é uma das empreendedoras que conquistou a atenção do público durante a Expocacau, em Ilhéus, na semana passada. Sua marca, Cacau Nobreza, além do tradicional chocolate – que vem embalado na folha do cacaueiro – possui geleia, melaço e licor feitos a partir do cacau . As sementes torradas e quebradas, os chamados nibs, são vendidas como uma espécie de granola.
“Eu nasci na roça, minha família sempre vendeu as amêndoas para o armazém, mas durante a pandemia comecei a pensar em formas de diversificar a renda. Comecei fazendo chocolate e fui descobrindo outros subprodutos. Ainda hoje, tem pessoas que não sabem que é possível beneficiar toda a matéria do cacau, você não perde nada. Dá para usar das folhas ao tronco”, conta Valdeci em entrevista à Globo Rural.
A ideia de criar a empresa surgiu em 2020. Hoje, seis anos depois, o cacau cultivado em sua propriedade atende exclusivamente a sua marca. “Diversificar o catálogo é importante justamente para ter um diferencial. Aqui muitas pessoas fazem chocolate. Nas feiras, a competitividade é grande. Então, ter outros produtos, que muitos nem imaginam o gosto, chama atenção e impulsiona as vendas”, garante.
Para Josué Jesus, diretor executivo da Coopermata (Cooperativa Cacau Mata Atlântica da Bahia), organização que representa e fortalece agricultores familiares no Baixo Sul da Bahia, apresentar as possibilidades oferecidas pelo cacau é um processo educativo, tanto para o produtor quanto para o consumidor.
“Nosso objetivo é verticalizar a produção e agregar valor a toda a cadeia. Queremos que o produtor consiga perceber toda a riqueza que ele possui em sua propriedade, que vai muito além da amêndoa. Essa diversificação é uma forma de multiplicar as fontes de ganho”, explica.
Na outra ponta, Josué diz que o consumidor tem a oportunidade de experimentar um produto de qualidade e de origem, com ingredientes naturais e nativos. “Valorizamos muito o que vem de fora, mas nossa região é rica em biodiversidade. Precisamos valorizar isso”, defende.
Hoje, a agroindústria da Cooperativa, que reúne mais de 335 famílias. Comercializa chocolate, mel de cacau, licor, cocada, nibs e está no processo de patentear uma pasta de cacau. Tembém tem um chá à base de mel de cacau.
Embora a manteiga de cacau seja usada há muito tempo no setor de beleza, há mais de dez anos o químico Fábio Neves vem direcionando suas pesquisas para outro derivado do fruto: o mel de cacau. Extraído da polpa, esse néctar natural reúne nutrientes valiosos, como vitaminas, fibras, antioxidantes e minerais, como o sódio, cálcio e magnésio.
Inicialmente, o objetivo era descobrir uma solução para a vassoura-de-bruxa, doença que dizimou as lavouras de cacau em grande parte do mundo, inclusive no Brasil, que chegou a ser o segundo maior produtor do fruto antes da crise causada pelo fungo. No entanto, o contato com os produtores e as visitas às fazendas fez despertar a sua curiosidade pelos resíduos da cadeia.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil produz cerca de 200 mil toneladas de cacau anualmente. A Bahia, junto com o Pará, fica responsável por, aproximadamente, 96% da safra nacional. Nestas regiões, graças à abundância do fruto, o mel de cacau é amplamente consumido como isotônico, mas o uso na indústria da beleza ainda é uma novidade.
“Descobri que ele é rico em aminoácidos, antioxidantes e ainda tem ação antimicrobiana. É muito poderoso. Foi aí que, em 2013, decidi investir nisso e criar a Cacaus Biocosmetics, a primeira marca do mundo a criar biocosméticos com resíduos de cacau”, relembra.
O projeto deu tão certo que, nos últimos anos, a empresa recebeu aportes que somam mais de R$ 1 milhão. No total, foram R$ 200 mil da Fapesp, R$ 400 mil Fundação Cargill, R$ 700 mil do CNPq e R$ 25 mil do BTG pactual 25 mil reais e R$ 28 mil do grupo Neoenergia, que virabilizaram a capacitação dos produtores parceiros, investimento em tecnologia e o aumento da escala de produção.
Atualmente, o catálogo tem hidrantes corporais, faciais, sabonete, xampu, além de velas aromáticas e de massagem. “Os produtos levam manteiga de cacau, mel de cacau e, agora, vamos começar a utilizar a casca na composição, porque desenvolvemos uma tecnologia que consegue extrair bioativos”, conta.
Além da matéria-prima, as marcas têm outra coisa em comum: o desafio de acessar o consumidor e competir com empresas maiores. Para eles, eventos como a Expocacau ajudam. “É uma chance de apresentar o produto, falar dos diferenciais, mostrar que os ingredientes são limpos e, muitas vezes, produzidos por nós mesmos. As pessoas valorizam isso, a história por trás”, garante Valdeci.
Fonte: Globo Rural


