Produtores de cacau apuram o paladar

 

Produtores de cacau espalhados pelo Sudeste, Nordeste e Norte do Brasil encontraram uma maneira de diversificar seu negócio. Ao invés de apenas vender a commodity agrícola, estão aproveitando parte da produção para investir em um nicho de mercado em expansão: o do chocolate premium. Segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Chocolate, Cacau, Amendoim, Balas e Derivados (Abicab), embora o segmento ainda represente uma parcela pequena do mercado total, tem taxa de crescimento de 20% ao ano.

 

"Faço parte da quarta geração em minha família a produzir cacau. Nos anos 1980 meu pai chegou a ter uma indústria de chocolate, mas ela não foi para frente. Ao participar de uma feira de chocolate em Nova York, em 2003, percebi que tinha condições de retomar a fabricação", explica o capixaba Paulo Gonçalves, que dedicou uma década a pesquisas de maquinário e métodos de produção antes de colocar no mercado em 2013 sua marca, a Espírito Cacau.

 

"Aperfeiçoamos o processo de torra, de fermentação e de refino. Cheguei a um resultado que me permitiu fazer chocolate com alto teor de cacau, sem adição de aromatizantes ou saborizantes", diz o produtor.

 

De uma de suas fazendas, a Ceará, situada na cidade de Linhares (ES) e com 120 hectares, hoje saem 1300 sacas de cacau por ano. Elas são destinadas à fábrica de chocolate instalada em Vila Velha, com capacidade para seis toneladas por mês.

 

"Até agora investimos R$ 4,5 milhões e tenho planos de investir mais R$ 2,5 milhões em uma nova fábrica para aumentar nossa capacidade. Todos os recursos são de capital próprio e espero o retorno em até cinco anos. Vale muito a pena pois a diferença de margem de vender a amêndoa do cacau e o chocolate gourmet pode chegar a 220%", afirma.

 

Premiado no Salão do Chocolate de Paris em 2010 por seu "cacau de excelência", Paulo Gonçalves vende seus chocolates com até 70% de cacau em uma loja em Vitória e agora tem planos de criar uma franquia com a marca.

 

Assim como produtores de vinho ganham reconhecimento pela variedade de uvas que utilizam, o produtor de cacau e chocolateiro baiano Henrique de Almeida, dono da marca Sagarana, tem se firmado no mercado por produzir chocolate varietal.

 

"Não conheço outro chocolateiro no Brasil que faça o produto a partir de uma única variedade especial, que é a do cacau forasteiro Maranhão", diz ele, que tem a produção em uma de suas fazendas, com 30 hectares, na Serra do Ribeirão do Terto, em Coaraci (BA), com capacidade de 3 toneladas por ano.

 

Parte da produção é comercializada ­ entre os clientes está a centenária chocolateria francesa Bonnat ­ e outra parte vai para a fábrica da Sagarana em Lauro de Freitas. "Nossos produtos têm formulações com 42% e 67% de cacau", diz Almeida. Ele não revela os números de investimento na marca de chocolate lançada em 2012, mas afirma que ela já representa 20% do faturamento de seus negócios (ele também vende cacau commodity).

 

"Não temos loja própria, mas já estamos presentes em 48 pontos de venda, como lojas de chocolate gourmet e restaurantes de alto padrão. Nossa meta é chegar a 100 pontos de venda até o final deste ano, o que nos permitirá começar a ter retorno do capital próprio investido", diz Almeida.

 

Para um grupo de 40 pequenos produtores de cacau em Medicilândia, no Pará, a fabricação de chocolate foi uma das maneiras encontradas de expandir os negócios e driblar as dificuldades encontradas para aumentar a área cultivada do fruto. "Conforme as medidas de controle do desmatamento avançam, nós produtores nos vimos diante do desafio de mudar o nosso modelo de produção e de encontrar alternativas para aumentar nossa rentabilidade", afirma Ademir Venturin, diretor­presidente da marca Cacau Way.

 

Foi assim que depois de fazer um estudo de viabilidade eles formaram a Cooperativa Agroindustrial da Transamazônica que desde 2010 produz 100 quilos por dia de chocolate com até 70% de cacau. Em média, o valor do quilo do produto chega a R$ 50, soma oito vezes maior do que o da amêndoa do fruto, vendida por cerca de R$ 6,30 o quilo. Para investir na fabricação, a cooperativa contou com R$ 2 milhões do Fundo de Apoio à Cacauicultura do Estado do Pará (Funcacau) e cerca de R$ 400 mil em recursos conjunto dos produtores.

 

"Como em qualquer outro mercado, o empreendedor precisa medir o tamanho do desafio e sua capacidade de entrar em um novo ramo. O mais recomendado é encontrar um nicho de atuação e explorar demandas específicas que os consumidores têm hoje, como as de produtos gourmet ou que atendem a necessidades de saúde", diz Heloisa Menezes, diretora técnica do Sebrae Nacional. Fonte: Valor Econômico

 

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