Setor global do cacau cria nova metodologia para avaliar risco de desmatamento nas cadeias de suprimento

A World Cocoa Foundation (WCF), em parceria com grandes empresas da indústria e instituições de pesquisa, desenvolveu uma nova metodologia para tornar mais consistente, transparente e verificável a avaliação do risco de desmatamento nas cadeias globais de cacau.

Batizada de Metodologia de Avaliação Ativa de Risco de Desmatamento, ou Active DRA, a iniciativa foi construída com participação da Aliança da Bioversity International e do CIAT, além de importantes grupos ligados ao comércio, processamento e fabricação de chocolate. Entre as empresas envolvidas estão Barry Callebaut, Cargill, Compañía Nacional de Chocolates, ECOM Agrotrade, Lindt & Sprüngli, Luker, Mondelēz, ofi, Sucden e Hershey.

O avanço ocorre em um momento de crescente pressão regulatória sobre o setor. As novas exigências europeias relacionadas ao desmatamento, à rastreabilidade e à due diligence corporativa estão obrigando empresas a ampliar o controle sobre a origem das matérias-primas e a qualidade das informações utilizadas para classificar áreas produtoras.

No caso do cacau, o desafio é especialmente complexo. A cadeia produtiva envolve milhões de pequenos agricultores, propriedades fragmentadas e diferentes níveis de disponibilidade de dados geográficos. Além disso, ainda não existe um padrão global único para determinar e verificar riscos de desmatamento, o que pode gerar diferenças relevantes entre empresas, países produtores e mercados consumidores.

A nova metodologia busca reduzir essas divergências por meio de um processo estruturado e baseado em evidências. O modelo estabelece orientações para controle de qualidade dos dados geográficos das propriedades, definição e validação de linhas de base florestais, análise de sobreposição com áreas de desmatamento, verificações de zoneamento legal, procedimentos de confirmação em campo e medidas de mitigação e correção.

A proposta também considera que nenhuma fonte de dados, isoladamente, consegue representar toda a complexidade das paisagens agrícolas tropicais. Imagens de satélite, mapas florestais, polígonos de propriedades e informações públicas podem apresentar diferenças ou limitações, especialmente em regiões onde sistemas agroflorestais, áreas de sombra e pequenas lavouras tornam a interpretação mais difícil.

Por isso, a Active DRA procura combinar análise científica, qualidade dos dados, conhecimento do contexto local, procedimentos de verificação e decisões documentadas. A expectativa é permitir avaliações mais comparáveis entre diferentes participantes da cadeia e reduzir decisões baseadas exclusivamente em informações incompletas ou conflitantes.

A metodologia foi desenvolvida dentro do trabalho da WCF voltado à garantia e aos padrões regulatórios e pretende funcionar como uma referência prática para empresas, governos e provedores terceirizados de monitoramento. O objetivo não é substituir sistemas nacionais ou processos internos de due diligence, mas complementar essas estruturas e fortalecer a confiança nos resultados.

Outro ponto relevante é a relação entre proteção ambiental e tratamento justo aos produtores. A WCF reconhece que avaliações incorretas ou baseadas em dados de baixa qualidade podem criar riscos de exclusão comercial para agricultores, especialmente pequenos produtores localizados em regiões com limitações de mapeamento e rastreabilidade.

O fortalecimento dos processos de verificação pode, portanto, ganhar importância diante das exigências regulatórias europeias, principalmente quando diferentes bases de dados apresentam resultados contraditórios sobre uma mesma propriedade ou área produtora.

A nova estrutura também poderá contribuir para melhorar o monitoramento das emissões de gases de efeito estufa relacionadas à mudança do uso do solo, ao aperfeiçoar procedimentos de definição de linha de base florestal, mapeamento e controle da qualidade dos dados.

Para Mike Matarasso, diretor de Impacto e chefe da América do Norte da World Cocoa Foundation, o setor necessita de abordagens robustas, transparentes e aplicáveis à realidade das cadeias produtivas. Segundo ele, a metodologia representa um avanço na busca por maior consistência, processos de verificação mais fortes e decisões melhor fundamentadas.

Louis Reymondin, cientista sênior da Aliança da Bioversity International e CIAT, destacou que nenhum conjunto de dados consegue capturar sozinho toda a complexidade das paisagens agrícolas tropicais. Nesse sentido, a nova metodologia procura criar uma estrutura para avaliar diferentes evidências, fortalecer a verificação e ampliar a transparência.

Fonte: mercadodocacau com informações confectioneryproduction

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