EUDR pressiona cadeia do cacau na África Ocidental e pode elevar custos para o mercado europeu

A adequação dos produtores africanos às novas exigências ambientais da União Europeia começa a revelar um dos principais desafios para o comércio internacional de cacau: quem pagará pela rastreabilidade necessária para manter o acesso ao mercado europeu?

Na Nigéria, quarto maior produtor mundial, exportadores estão investindo milhões de dólares no mapeamento e geolocalização das propriedades de pequenos agricultores. O objetivo é preparar a cadeia para o Regulamento Europeu sobre Desmatamento (EUDR), que exigirá comprovação de que commodities destinadas ao bloco não estejam associadas ao desmatamento.

O desafio ganha dimensão especialmente relevante porque a África Ocidental responde por aproximadamente 70% da produção mundial de cacau, enquanto cerca de dois terços das amêndoas produzidas na região são destinadas ao mercado europeu.

Na Nigéria, que possui aproximadamente 300 mil produtores de cacau, predominantemente pequenos agricultores, especialistas do setor estimam que mais da metade da produção poderá inicialmente enfrentar dificuldades para atender integralmente às exigências europeias.

A situação não é exclusiva do país. Costa do Marfim e Gana enfrentam problemas semelhantes devido à pulverização das propriedades, presença de intermediários e dificuldade de estabelecer rastreabilidade completa entre a fazenda e o exportador.

Na Costa do Marfim, por exemplo, estudo da organização Trase apontou que apenas cerca de metade do cacau poderia ser rastreada até sua área de produção, enquanto parcela relevante ainda circula por cadeias indiretas e com múltiplos intermediários.

Para continuar abastecendo compradores europeus, grandes exportadores estão assumindo custos importantes.

A nigeriana Sunbeth Global informou ter mapeado, nos últimos três anos, aproximadamente 124 mil hectares, cobrindo cerca de 60 mil toneladas de cacau de sua cadeia de fornecimento. O custo do trabalho é estimado entre US$ 30 e US$ 70 por tonelada.

Além do georreferenciamento das propriedades, a empresa mantém centenas de agentes de campo, programas de treinamento dos produtores e uma equipe de sustentabilidade com 35 profissionais.

A Starlink Global and Ideal, maior exportadora de cacau da Nigéria e responsável por aproximadamente 60 mil toneladas anuais, também informou investimentos entre US$ 40 e US$ 80 por tonelada para mapear e rastrear sua cadeia desde 2023.

O problema é que esses custos ainda encontram resistência para serem integralmente repassados aos compradores europeus.

Na prática, a implementação do EUDR começa a criar uma nova variável econômica no comércio internacional de cacau: o custo da conformidade.

A rastreabilidade pode deixar de ser apenas uma exigência ambiental e passar a influenciar diretamente os diferenciais de origem. Cacau comprovadamente rastreável e disponível para embarque à Europa tende a adquirir valor comercial diferente daquele que não consegue demonstrar sua origem.

Isso significa que acompanhar apenas a cotação de Nova York ou Londres poderá ser insuficiente. Prêmios, descontos, disponibilidade física e diferenciais entre origens podem ganhar ainda mais importância na formação dos preços.

No Mercado do Cacau Intelligence, o assinante acompanha bolsas internacionais, dólar, arbitragem Londres/Nova York, diferenciais e preços internos, permitindo relacionar mudanças estruturais como o EUDR aos movimentos efetivos do mercado.

Outro risco está na quantidade de cacau efetivamente disponível para importadores europeus.

O consultor de sustentabilidade e ex-comerciante global de cacau Nicko Debenham avalia que, principalmente no início da implementação das novas regras, compradores europeus poderão encontrar dificuldades para obter volumes suficientes de cacau em conformidade provenientes de fornecedores indiretos da Nigéria, Costa do Marfim e outras origens.

Segundo sua avaliação, esse aperto poderia persistir por aproximadamente dois anos. Nesse cenário, exportadores que já realizaram investimentos em rastreabilidade estariam em melhor posição para negociar prêmios pelo cacau elegível ao mercado europeu.

Isso não significa necessariamente falta de cacau no mercado mundial. O risco é mais específico: poderá existir cacau fisicamente disponível, mas nem todo esse volume estará habilitado a entrar na União Europeia.

As novas regras também poderão acelerar uma reorganização da comercialização na África Ocidental.

Exportadores maiores e mais capitalizados possuem melhores condições para financiar sistemas de georreferenciamento, equipes de campo, auditorias e plataformas digitais de rastreabilidade. Pequenos operadores e produtores independentes podem enfrentar dificuldades maiores.

A consequência poderá ser uma concentração gradual do cacau destinado à Europa em cadeias mais estruturadas e rastreáveis.

Para os produtores que conseguirem permanecer dentro dessas cadeias, a conformidade poderá representar acesso aos compradores europeus e eventualmente melhores condições comerciais. Para aqueles que permanecerem fora dos sistemas de rastreabilidade, poderá surgir a necessidade de direcionar sua produção para outros mercados.

Fonte: mercadodocacau com informações cnbcafrica

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