O Conselho do Cacau de Gana (COCOBOD) prepara uma mudança significativa em sua estratégia de financiamento. O órgão regulador pretende emitir ainda este mês papéis comerciais denominados em cedi e outros instrumentos de dívida no mercado doméstico, reduzindo a dependência do tradicional modelo de empréstimos sindicados com bancos internacionais utilizado por mais de três décadas.
Segundo Randy Abbey, CEO da COCOBOD, a instituição planeja lançar títulos comerciais com prazo de 270 dias, dentro de um programa de financiamento projetado para os próximos cinco anos. A estratégia deverá financiar as operações do setor, incluindo a compra de cacau dos produtores, além de ajudar no pagamento de obrigações financeiras acumuladas nos últimos anos.
A expectativa é que a COCOBOD consiga captar aproximadamente GHS 16 bilhões por ano no mercado ganês. O governo aposta na elevada liquidez doméstica, especialmente dos fundos de pensão, que administram mais de GHS 100 bilhões, equivalentes a aproximadamente US$ 8,5 bilhões. Gestores de fundos e consultores já foram contratados para estruturar o novo modelo.
A mudança ocorre após o enfraquecimento do sistema de financiamento internacional durante a crise da dívida de Gana. Por 32 anos, a COCOBOD utilizou empréstimos sindicados anuais, principalmente para financiar a aquisição da safra. O mecanismo começou a enfrentar dificuldades em 2023 e acabou não sendo utilizado para a temporada 2024/25.
Apesar da mudança, a situação financeira do órgão permanece desafiadora. Em 2023, aproximadamente GHS 7,93 bilhões em obrigações de curto prazo relacionadas ao setor de cacau foram reestruturados em títulos com vencimentos entre 2024 e 2028. Como consequência, a COCOBOD enfrenta atualmente compromissos de serviço da dívida próximos de GHS 2,6 bilhões anuais, com pagamentos relevantes previstos para 2026, 2027 e 2028.
A capacidade de financiamento da COCOBOD é particularmente importante para o mercado internacional. Gana é o segundo maior produtor mundial de cacau, atrás apenas da Costa do Marfim, e a atividade sustenta cerca de 850 mil famílias de agricultores no país. O setor também gera aproximadamente US$ 2 bilhões anuais em divisas.
Paralelamente à reorganização financeira, o governo ganês pretende ampliar o processamento doméstico. A meta é que pelo menos 50% das amêndoas produzidas no país sejam processadas localmente a partir da safra 2026/27, aumentando a participação de Gana nas etapas de maior valor agregado da cadeia.
A nova estratégia de financiamento representa, portanto, mais do que uma simples troca de credores. Ao substituir progressivamente recursos externos por dívida denominada em moeda local, Gana busca reduzir a vulnerabilidade cambial da COCOBOD e construir uma estrutura mais estável para financiar a compra das safras. O sucesso do modelo será importante para a capacidade do país de remunerar produtores, sustentar a produção e cumprir seus compromissos financeiros nos próximos anos.
Fonte: mercadodocacau com informações intellinews




